
Candy pergunta: “E se eles estiverem errados?”.
Apanha a calcinha no chão e encontra uma moeda de vinte e cinco centavos.
Apóio os cotovelos no parapeito. E ala diz para as minhas costas:
“Quem sabe meu limite seja diferente? Quem sabe dure mais, um pouco mais, para sempre. Nunca vou saber se parar agora”.
Candy tem essa fara por trepar em altos de prédios. Enquanto descemos as escadas entre o telhado e o estacionamento do shopping, um segurança parado ao pé da escada aponta para gente e pergunta o que estávamos fazendo lá em cima.
Ao longo de um galpão escuro, você pode beber a cerveja ao balcão do bar e ficar observando cem pessoas com os olhos em sua mulher. Alguns estão gritando até ficarem roucos, jogando os punhos cerrados no ar, apinhando-se junto ao pé do palco.
É difícil adivinhar se a Candy que vemos com as mãos fechadas em torno de um microfone de mil de trezentas pilas, suando, é a mesma Candy que há uma hora dividia uma garrafa de vinho comigo e dizia que talvez fosse uma exceção.
Pode acontecer, eu respondia. Pode acontecer.
Ela não tem uma voz bonita ou é afinada. Mas isso nunca a impediu de berrar.
Essas noites são importantes. Sem elas Candy reteria toda a fúria.
Com o microfone na mão faz tudo dentro dela transbordar.
Nas manhãs seguintes aos shows, Candy continua tossindo. Cospe sangue no balde amarelo que fica ao lado da cama. Colamos um adesivo de smile na lateral do balde. Ficou bacana. Depois de gritar, Candy passa dias vomitando, tossindo, tossindo. A essa altura são apenas pólipos nas cordas vocais. A voz vai e vem. Às vezes fica entrecortada, um fio, um sussurro, dizendo, “Quando voltar, traga Coca-Cola”. Ela é viciada nisso.
A doutora disse que as dores na coluna são efeitos de doença emocional, é por causa da intensidade do modo como Candy canta. O Edema de Reinke é por causa dos abusos da voz. Se continuar assim, disse a doutora, em pouco tempo você terá um nódulo e poderá perder a voz.
“Se não continuar não tenho por que ter uma voz”.
Cabeça dura.
Quando o próximo show acaba, entramos num bar e Candy tosse, diz que talvez seja só uma fase. Pode acontecer, eu digo. É uma cabeça dura.
Ela poderia simplesmente parar antes de perder a voz.
Poderia pegar leve e cantar com menos força.
Quem sabe evitar o maldito nódulo nas cordas vocais.
“E se só uma vez Deus errou. Talvez ele tenha se distraído com algum outro afazer e se esquecido de amarrar na minha bunda a corda que Ele decide puxar quando acha que a gente está indo longe demais”.
Pode acontecer, Candy.
Ela está berrando outra vez, a um passo de mandar a epiglote e a laringe para o espaço. No fim do show Candy tenta dizer alguma coisa ao meu ouvido, mas só sai um sussurrinho agudo, como a risada do Muttley da Corrida Maluca. Entramos no carro. Ouvindo Nina Simone no CD player. A chuva bate contra o pára-brisa e o ar empurra os pingos no vidro para cima. Parece que está chovendo de ponta-cabeça. Candy dorme. Continuamos durante a noite. Até a próxima cidade. Até o próximo palco.








7 comentários:
Pago muito pau pra essa Candice o_O
Cada grito foda.
Ao ver esse conto lembrei daquele seu post sobre o show do ETHS , kkk , ri muito com aqueles funkeiros satãnicos
Abraço cara!
Ótimo!!! Seus contos são envolventes demais, a gente gruda em ler e quando termina fica com gosto de querer mais...(rs)
"Candy Candy Candy
I can't let you go
Life is crazy..."
Abração
Candy terá de parar um dia.
Candy vai morrer um dia...
MAIS NÃO AINDAAAAAA !!!
NOT YET !!
A Candice é ainda melhor ao vivo, tem que ver, cara...
Tem gente que só pára quando bate as botas, Luiz...
Eu me identifiquei muito com a Candy... essa sede de não adiar, essa necessidade de extravasar, porque reter a fúria é muito mais auto-destrutivo que gritar até cuspir sangue. Reter a fúria é definhar por dentro, até o coração parar de bater.
Beijos, moço.
Tu escreve prá caralho Sr. Romano.
Sou fã incondicional.
:)
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