O Mnemônico
É falta de vergonha na cara. Vá lá, tô sabendo. Repostar texto postado em outro site. Mas pelo jeito ando bloqueado. Até as tirinhas me fogem.
A assinatura que mais tenho buscado é a de um tal Torrent. Seriados, filmes e sons. Então Kick-ass é um filme divertido. Se nada mais der certo, genial, triste, bonito. A Origem é um Disney para adultos, vazio e cheio de purpurina. E nunca havia reparado que o início de Candy é referência a uma cena de Os incompreendidos, girando e girando, "quando conheci Candy...", bacana. A HQ de Walking Dead não havia me agradado, apesar de curtir zumbis, mas a série tem uma fotografia bacana, pelo menos. Ontem passou Clube da luta na tevê. Mesmo dublado continua poderoso, profundo. Ainda piro em Terminator, menos no terceiro, uma porcaria. Conseguiram estragar o ápice da trama, quando a Skynet vira Skynet, com um John Connor chapado de crack, Kate Brewster querendo ser Alice pela toca do coelho, T-800 falhofeiro, brincalhão e... mártir? Qual é, porra, de novo? Sarah Connor era a dark diesel mais tesuda do mundo. T2 é bom demais.
Outra coisa é que finalmente vou ver Lost, assim que os 40 Gb forem baixados. Aposto que o Jack vai se lascar todo e aquele careca vai lenhar com todo mundo. E Supergalo, atual banda do Alf, ex-Rumbora, é uma merda, nem um quarto da força e do vigor da ex-banda de rock paulada anos 90. Deus abençoe os anos 90. E Santo Jorge Ben, a melhor coisa que vão inventar nos próximos cinquenta anos. Porque não vejo (e ouço) Chico Buarque senão como um robô, talvez um T-800, mecânico demais. Ana Cañas e Maria Gadu, T-600 ou Frank Puxa-frango, duros, burros e lentos. A Vanessa da Mata é um C3PO, tetraplégico. O que há com essas pessoas? Quando instalaram um metrônomo e um diapasão na cabeça delas?
Mas é isso. Vendo uns filmes. Reclamando. Intercalando leitura sem-vergonha e preguiçosa pelas coisas de João Antônio, Fernando Sabino e Graciliano Ramos. É isso. Eu, sem-vergonha. Tem mulher que gosta. Eu gosto das. Mas preguiçoso é foda. Lá vai o conto.
...
O Mnemônico
— Eu sei.
— ...
— Eu sei.
— Desculpe?
— Eu disse que já te saquei.
— Como?
— Te saquei.
— Me sacou?
— Isso.
— ...
— Já manjei.
— A mim?
— A você.
— …
— Te saquei.
— Quem é você?
— Prazer. Meu nome é Setembro.
— Oi. Carlos.
— Não vai me perguntar por que Setembro?
— Não.
— Eu te saquei.
— Sacou o quê, amigo?
— Tudo.
— Um-hum.
— Te vejo vir aqui todos os dias. Você se senta aqui, fica a tarde toda, depois vai embora. Nunca embarca. Todo mundo embarca. Menos você, que fica aqui. Eu sei a razão.
— Sabe?
— Quer saber como descobri?
— Não.
— Você está atrás da mesma coisa que eu. Por isso sei tudo sobre você.
— Legal.
— Eu também nunca embarco. Mas, ao contrário de você, nunca vou embora. Alguns vêm, outros vão. Nós os vemos, os observamos. Eu te vejo. Todos os dias. E sei que você também me vê. Você é o único, fora a mim, que nunca embarca. E eu sei o seu motivo. Quer saber o meu?
— Não.
— Quando eu tinha sete anos, a primeira mnemônica que me surgiu foi bobagem, um ensaio para algo maior. Nunca sabia o que vinha antes; junho ou julho, julho ou junho. Então pensei, “por que não lembro? Ora, por que não lembro? Não lembro. Ene, de não, é relativo a junho. Lembro, ele, a julho.” As primeiras letras das palavras, compreende? Junho e julho. Ene, não, e ele, lembro. Chama-se braquilogia.
— Puxa.
— Mnemônica. É por isso que não vou embora. Tudo tem um padrão signalético a ser memorizado. Estamos todos interligados; nós, a natureza, os números, os signos, tudo se repete. Eu descobri o código dessas pessoas, elas se repetem, é simples sacar todas elas porque seus padrões são simples. “Cada um dos índios que caminham alinhados uns atrás dos outros pelo atalho trata de pisar à sombra do que segue à sua frente para dar a impressão de que caminha um só índio gigante.” Isso é Sahlins. Mas algumas coisas eu ainda não saquei, por isso continuo aqui.
— Você nunca sai daqui?
— Raramente.
— E pra mijar?
— Tem banheiro ali.
— Caga lá?
— No mato. No banheiro só tem mictório.
— Sensato.
— E as outras coisas: alimentação, moradia, dinheiro, não quer saber como?
— Não.
— Te saquei.
— Legal.
— “There is a correct view as to how the rite should be performed and possibly also as to what it is supposed to achieve. But there is no correct experience of it.” Isso é Gerholm. Dostoiévski tentava encontrar os padrões dos números nas roletas pela sequência dos jogos e dos ritos à mesa, mas o dinheiro e a irmã maluca acabaram com ele.
— A irmã maluca era do Nietzsche.
— Cshhh.
— …
— Te saquei.
— …
— Cshh.
— Foi casado, não?
— Como sabe, mnemônica semiótica? Pelas minhas roupas. Você deduziu pelo meu traço gnosiológico, que, por vestir roupas boas, embora amassadas, não as comprei, foi uma mulher que as comprou. Entre ser minha mãe ou uma esposa, mesmo não tendo aliança nos dedos, você optou pela segunda por aleatoriedade, e acertou. Bom raciocínio. Por isso descobriu que fui casado.
— Não. É que você parece meio biruta, alguma coisa acabou com a sua cabeça.
— Cshh.
— …
— Cshhhhh.
— Por que não joga na loteria?
— Com qual objetivo?
— Ter um lugar decente para cagar.
— Não preciso de dinheiro. Preciso de fatos e sequências.
— Tá.
— Cshh.
— …
— Cshh.
— …
— Cshh.
— Para de fazer essa coisa. Está me irritando.
— Eu sei o motivo de você estar aqui.
— Certo.
— Está em busca de algo nos padrões, assim como eu. Escolhe sempre o mesmo lugar para observá-los. É metódico. Me diz uma coisa, se num certo dia você chegasse e não visse mais esse banco aqui, se o tivessem retirado, o que você faria? Eu sei o que você faria.
— Sentaria ali no outro.
— Não. Não faria isso. Ficaria aqui de pé, no mesmo lugar. Seria obrigado a isso para não modificar a sua perspectiva.
— Não. Sentaria ali no outro.
— Humff.
— …
— Humff.
— Para com isso.
— Inchhh.
— Vou embora.
— Você vai voltar. Eu sei, é seu código.
— Não vou, não.
— Você vai voltar.
— Para de me seguir, porra!
— Você vai voltar. Eu sei. Você precisa.
— Fica longe! Vou te dar um soco, cara!
— Pfhhh. Nehhh. Chiaaa. Cshhhh.
[O homem corre para fora da estação, o outro o segue até a rua e volta para a plataforma. No dia seguinte, o homem não retorna, nem na semana seguinte, nem no mês seguinte. O outro homem, o da mnemônica, o do gnosiológico, nunca mais é visto.]
![]() |
| Sarão, a mulher moderna |
![]() | |||
| Frank Puxa-frango fazendo seu serviço |
Mas é isso. Vendo uns filmes. Reclamando. Intercalando leitura sem-vergonha e preguiçosa pelas coisas de João Antônio, Fernando Sabino e Graciliano Ramos. É isso. Eu, sem-vergonha. Tem mulher que gosta. Eu gosto das. Mas preguiçoso é foda. Lá vai o conto.
...
O Mnemônico
— Eu sei.
— ...
— Eu sei.
— Desculpe?
— Eu disse que já te saquei.
— Como?
— Te saquei.
— Me sacou?
— Isso.
— ...
— Já manjei.
— A mim?
— A você.
— …
— Te saquei.
— Quem é você?
— Prazer. Meu nome é Setembro.
— Oi. Carlos.
— Não vai me perguntar por que Setembro?
— Não.
— Eu te saquei.
— Sacou o quê, amigo?
— Tudo.
— Um-hum.
— Te vejo vir aqui todos os dias. Você se senta aqui, fica a tarde toda, depois vai embora. Nunca embarca. Todo mundo embarca. Menos você, que fica aqui. Eu sei a razão.
— Sabe?
— Quer saber como descobri?
— Não.
— Você está atrás da mesma coisa que eu. Por isso sei tudo sobre você.
— Legal.
— Eu também nunca embarco. Mas, ao contrário de você, nunca vou embora. Alguns vêm, outros vão. Nós os vemos, os observamos. Eu te vejo. Todos os dias. E sei que você também me vê. Você é o único, fora a mim, que nunca embarca. E eu sei o seu motivo. Quer saber o meu?
— Não.
— Quando eu tinha sete anos, a primeira mnemônica que me surgiu foi bobagem, um ensaio para algo maior. Nunca sabia o que vinha antes; junho ou julho, julho ou junho. Então pensei, “por que não lembro? Ora, por que não lembro? Não lembro. Ene, de não, é relativo a junho. Lembro, ele, a julho.” As primeiras letras das palavras, compreende? Junho e julho. Ene, não, e ele, lembro. Chama-se braquilogia.
— Puxa.
— Mnemônica. É por isso que não vou embora. Tudo tem um padrão signalético a ser memorizado. Estamos todos interligados; nós, a natureza, os números, os signos, tudo se repete. Eu descobri o código dessas pessoas, elas se repetem, é simples sacar todas elas porque seus padrões são simples. “Cada um dos índios que caminham alinhados uns atrás dos outros pelo atalho trata de pisar à sombra do que segue à sua frente para dar a impressão de que caminha um só índio gigante.” Isso é Sahlins. Mas algumas coisas eu ainda não saquei, por isso continuo aqui.
— Você nunca sai daqui?
— Raramente.
— E pra mijar?
— Tem banheiro ali.
— Caga lá?
— No mato. No banheiro só tem mictório.
— Sensato.
— E as outras coisas: alimentação, moradia, dinheiro, não quer saber como?
— Não.
— Te saquei.
— Legal.
— “There is a correct view as to how the rite should be performed and possibly also as to what it is supposed to achieve. But there is no correct experience of it.” Isso é Gerholm. Dostoiévski tentava encontrar os padrões dos números nas roletas pela sequência dos jogos e dos ritos à mesa, mas o dinheiro e a irmã maluca acabaram com ele.
— A irmã maluca era do Nietzsche.
— Cshhh.
— …
— Te saquei.
— …
— Cshh.
— Foi casado, não?
— Como sabe, mnemônica semiótica? Pelas minhas roupas. Você deduziu pelo meu traço gnosiológico, que, por vestir roupas boas, embora amassadas, não as comprei, foi uma mulher que as comprou. Entre ser minha mãe ou uma esposa, mesmo não tendo aliança nos dedos, você optou pela segunda por aleatoriedade, e acertou. Bom raciocínio. Por isso descobriu que fui casado.
— Não. É que você parece meio biruta, alguma coisa acabou com a sua cabeça.
— Cshh.
— …
— Cshhhhh.
— Por que não joga na loteria?
— Com qual objetivo?
— Ter um lugar decente para cagar.
— Não preciso de dinheiro. Preciso de fatos e sequências.
— Tá.
— Cshh.
— …
— Cshh.
— …
— Cshh.
— Para de fazer essa coisa. Está me irritando.
— Eu sei o motivo de você estar aqui.
— Certo.
— Está em busca de algo nos padrões, assim como eu. Escolhe sempre o mesmo lugar para observá-los. É metódico. Me diz uma coisa, se num certo dia você chegasse e não visse mais esse banco aqui, se o tivessem retirado, o que você faria? Eu sei o que você faria.
— Sentaria ali no outro.
— Não. Não faria isso. Ficaria aqui de pé, no mesmo lugar. Seria obrigado a isso para não modificar a sua perspectiva.
— Não. Sentaria ali no outro.
— Humff.
— …
— Humff.
— Para com isso.
— Inchhh.
— Vou embora.
— Você vai voltar. Eu sei, é seu código.
— Não vou, não.
— Você vai voltar.
— Para de me seguir, porra!
— Você vai voltar. Eu sei. Você precisa.
— Fica longe! Vou te dar um soco, cara!
— Pfhhh. Nehhh. Chiaaa. Cshhhh.
[O homem corre para fora da estação, o outro o segue até a rua e volta para a plataforma. No dia seguinte, o homem não retorna, nem na semana seguinte, nem no mês seguinte. O outro homem, o da mnemônica, o do gnosiológico, nunca mais é visto.]
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Daria um bom curta... E gostei do jeito que escreveu o texto acima, menos pelo Chico! Seu... seu.. Cabaço!