16 maio 2012

Os loucos das pensões e a maldita internet

2011. Meu quarto era o 3, segundo andar. De 50, 70 quartos da pensão. Um refúgio da marquise, de 3,5 por 3 metros. Houve piores. Quartinhos de ficar deitado em uma só posição, feito uma obra de arte cercada de isopor e espuma. Se encucava em voltar para o outro sentido, as pernas deveriam ser dobradas. Jogadas parede úmida e amarela acima. Dobradinho. Um origami de gente.

Desses anos morando em quartos alugados, pouco a ciência desse ex-escritor de blogue pescou sobre o que faz os loucos gostarem tanto dos corredores das pensões. Dos quartinhos de quinhentos dinheiros por mês, incluindo água, luz e internet.

Na Vila Mariana, tinha aquele cara. Um velhaco gordo, que devia andar cinco ou seis quilômetros pelos mesmos dez metros entre a cozinha compartilhada e o banheiro compartilhado, no andar térreo. Andava. Andava para cacete. E falava. Sozinho. Eu o achava um louco inofensivo e sem graça.

Graça tinha o outro velho, o do chapéu de pesca. Esse gostava de mim, por algum motivo. Me trazia bolo de laranja e perguntas. Comprava uma calça ou uma blusa nova e queria saber se o tecido aguentava. Aguentar o quê, seu Alcides? Chuva, sol, essas coisas. Ah, deve aguentar, né? Essas calças são boas, pode confiar. Seu Alcides morreu. Foi enterrado com calças boas, será?

Não apenas de velhos loucos a pensão da Vila Mariana se valia. Ali também uma velha louca, que me via pelos corredores e desviava de mim, fazia meus dias mais esquisitos. A Dona Louca, como eu a chamava. Em algumas noites, quando o sinal da internet caía e eu buscava wi-fi do vizinho pelos corredores (às vezes não me vestia direito, confesso), a Dona Louca interrompia o passo na minha frente, virava a cara para a parede e passava por mim, de costas. Sentia uma inocência oriental nela. Ou o sinônimo de maluca que o leitor achar mais adequado à crônica.

Quando comprei uma antena wi-fi e meti-a no corredor à minha porta, para dar cabo do problema da internet mambembe, o problema então foi o filho mais velho da família que dividia o quarto ao lado (três: mãe, filho velho e filho novo, vivendo num quartinho 3,5 X 3, uma coisa triste, até para a minha sensibilidade). O filho velho seguia esse hábito: chutar a minha antena wi-fi. Ela, a antena, precisava estar direcionada para a origem do sinal, para a parede da entrada da pensão. Eu ouvia um pof, botava a fuça para fora do quarto e lá estava, a minha antena de ponta-cabeça. Vez ou outra pegava o cara no pulo. Ele pedia desculpa e rearranjava a anteninha. Eu fechava a porta e ouvia novamente o pof lá fora.

Morei nessa pensão por oito meses. O dono, seu Carlos, me via como bom inquilino, embora deslocado. Lembro dessas coisas por esta postagem fazer parte dos meus dias finais na pensão do Cambuci, em que passei os últimos seis meses. Onde também há loucos, menos extravagantes e ativos, sim.

Ignoro o que faz os loucos gostarem tanto de pensões. Ignoro o que os fazem gostar ou não de mim. Ou morrerem em calças boas.

A mudança para a nova pensão acontecerá em alguns dias, ainda na Vila Mariana. Uma com 70 ou 80 quartinhos. Espero poder desdobrar minhas pernas e ter uma internet digna e funcional. Os loucos, esses sempre estarão lá.

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