28 março 2017

Conto Desencanto




"Queria, antes de inventar o guarda-chuva, e ser atropelado, ter aprendido mágica.

Caído no meio da rua de pedras retangulares desalinhadas, ouvia a chuva como no interior de uma concha, e não sentia mais os pingos espancar o rosto, não sentia mais nada, de olhos arregalados, ao lado do guarda-chuva, que inventou, precisamos lembrar, originado de costumes litúrgicos orientais antigos, confeccionado agora com couro de avestruz e estruturado por balsa, mesmo tendo, esse sujeito, de enfrentar o escárnio por ter inventado o guarda-chuva e carregá-lo solitariamente pela cidade, queria ter aprendido mágica.

Saberia, sendo um grande mágico, o velho truque do coelho, o das cartas, o da moeda, o do levitador, o da mulher serrada ao meio. Todos eles.

Conquanto mágico, com seu método faria pequenos objetos sumirem e reaparecerem. O artifício de surpreender qualquer um que tivesse um ou dois minutos.

Aprendido mágica, reteria com isso também o domínio do autodesencanto.  Uma vez mágico, não haveria mais a mágica, pois ela, conquistada, se perderia. No momento adiante, seria o dono de outra ignorância incorrigivelmente inacessível. Para ele, os truques se tornariam apenas mais um ritual, como o de escovar os dentes, o de lustrar as botas, o de cortar laranjas."

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